As marcas invisíveis que as queimaduras deixam na vida

Após sofrerem lesões na pele, pacientes do Hospital Metropolitano também passam por acompanhamento psicológico. O objetivo é ajudar no restabelecimento social e enfrentar o preconceito

As marcas espalhadas pelo corpo do Agostinho Costa, 41 anos, não o deixam esquecer do dia 2 de novembro do ano passado. O pescador sofreu queimaduras por descarga elétrica, em São João de Pirabas, no município do nordeste paraense.

“Foi tudo muito rápido. Eu senti um calor passando pelo meu corpo e quando olhei para o meu braço e as minhas pernas, elas estavam derretidas e pensei: preciso ter calma!”, explicou Agostinho ao lembrar o dia do acidente.

O paciente deu entrada no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua, no dia 6 de novembro de 2019, com 35% do corpo com queimaduras de terceiro grau, além de quase 90% de chances de sofrer amputação das duas pernas.


Recuperado, Agostinho carrega as marcas da queimadura. Foto: Ascom / Pró-Saúde.

História semelhante é da Mirelle de Jesus, de 10 anos, que também sofreu queimaduras em casa, localizada em São Félix do Xingu, sudeste do Pará. A menina ficou internada quase dois meses no CTQ do Metropolitano para se recuperar das sequelas.

A tia da menina, Alzira de Jesus Lacerda, relata como aconteceu o acidente. “Minha sobrinha brincava perto do fogão a lenha e em cima tinha uma garrafa de álcool que explodiu. O líquido com fogo caiu em cima da minha sobrinha que ficou com o corpo todo queimado”.

Resultado das queimaduras no corpo da criança. Foto: Ascom / Pró-Saúde.

O Hospital Metropolitano, que pertence ao Governo do Pará, sendo gerenciado pela Pró-Saúde, possui uma a ala específica e voltada para internação de pacientes com queimaduras, com atendimento 100% gratuito.

Recuperação da mente

“Acompanhar a rotina de pacientes queimados é chegar muito perto de situações extremas de dor, medo e angústia”. É assim que o médico e responsável técnico pelo CTQ do Hospital Metropolitano, Ivanilson Raniéri, define o seu trabalho.

O médico explica ainda que a “luta pela vida, e aprender a conviver com as marcas no corpo, são os principais desafios de quem sofreu queimaduras. Alguns encontram forças na reabilitação. Outros tentam desistir, e é neste momento que entram os psicólogos da entidade”, enfatizar Raniéri.

A maioria dos pacientes com queimaduras estão em estado grave. Foto: Ascom / Pró-Saúde.

Em 2019, o Hospital Metropolitano recebeu 478 pacientes com queimaduras diversas, de 60 municípios do Pará. Desse número, foram registrados 204 pacientes, entre 20 a 49 anos, principal faixa etária desse tipo de acidente.

A maioria das vítimas de queimaduras precisa de uma atenção especial da equipe de psicologia do Metropolitano. São pessoas que tiveram o seu corpo, além da vida social alterada por conta do acidente.

“A desfiguração física e estética da vítima traz impacto psicológico, fazendo com que o paciente precise de acompanhamento psicológico de curto a longo prazo. O processo de recuperação é longo e doloroso, com marcas para a vida toda”, ressalta a coordenadora do serviço psicossocial do HMUE, Jucielem Farias.

Alta do hospital e a volta para casa

Após a alta médica e o retorno para a casa, o tratamento clínico dos pacientes continua, com sessões de terapia ocupacional e fisioterapia ao longo de meses. O tratamento contribui para evitar que a pele grude, enrugue, impeça os movimentos e cause problemas de crescimento, principalmente em crianças.

“A pele cicatrizada não tem a mesma flexibilidade de uma normal”, pontua o fisioterapeuta e coordenador de reabilitação, Henrique Gomes. Na avaliação do profissional, “o processo é demorado, exigindo paciência e persistência”.

O setor de reabilitação do Hospital Metropolitano recebe diariamente dezenas de pacientes queimados. A fisioterapia é importante na reabilitação, para restabelecer funcionalidades e a diminuição das sequelas físicas e motoras que podem ocorrer devido à lesão.

Agostinho é um exemplo disso. Mesmo após a alta médica, ele continua realizando as sessões de reabilitação. “Antes eu não conseguia andar direito. Hoje eu já ando até de bicicleta”, brinca o pescador, que falou sobre a importância dos psicólogos no tratamento.

“Se não fossem esses profissionais, a minha mente não teria forças e eu não estaria recuperado”, concluiu.

Dia de avaliação do seu Agostinho, após alta médica. Foto: Ascom / Pró-Saúde.

Sobre a Pró-Saúde

Com 16 mil colaboradores e mais de 1 milhão de pacientes atendidos por mês, é uma das maiores do mercado em que atua no Brasil. Atualmente realiza a gestão de unidades de saúde presentes em 24 cidades de 12 Estados brasileiros — a maioria no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde). Atua amparada por seus princípios organizacionais, governança corporativa, política de integridade e valores cristãos.

A criação da Pró-Saúde fez parte de um movimento que estava à frente de seu tempo: a profissionalização da ação beneficente na saúde, um passo necessário para a melhoria da qualidade do atendimento aos pacientes que não podiam pagar pelo serviço. O padre Niversindo Antônio Cherubin, defensor da gestão profissional da saúde e também pioneiro na criação de cursos de Administração Hospitalar no País, foi o primeiro presidente da instituição.