Pessoas com deficiência recebem orientação da Pró-Saúde para ingresso no mercado de trabalho

A  vida de Valdiney Mendonça mudou em 2006. Naquele ano, o homem de 43 anos foi vítima de baleamento. O episódio resultou em uma sequela na perna esquerda, o que tornou Valdiney uma pessoa com deficiência.

As dificuldades, no entanto, já ocorriam mesmo antes desse acontecimento. Valdiney só estudou até a terceira série do ensino fundamental e relatou dificuldades para elaborar um currículo que desperte o interesse do recrutador. Ele também não tinha ideia de como se comportar em uma entrevista de emprego.

Valdiney e outras pessoas com deficiência participaram de uma manhã de orientação promovida pela Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar na sede da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD), em Belém (PA), neste sábado (19/8). O auditório da entidade recebeu mais de 100 pessoas com deficiência, que ouviram atentos as orientações sobre elaboração de currículo e entrevista de emprego pelos profissionais do setor de Gestão de Pessoas da Pró-Saúde no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua (PA).

O acesso de PCDs ao mercado de trabalho é assegurado pela lei federal 8.123/91, conhecida popularmente como Lei de Cotas. Mas, como Valdiney, boa parte dos PCDs ainda têm pouca ideia de como se preparar para concorrer a estas vagas. A abertura da palestra foi feita pela diretora de Capacitação Profissional e de Comunicação da APPD, Regina Barata, e pelo diretor-geral da entidade, Amaury de Sousa Filho.

Dividida em tópicos, a palestra comandada pela coordenadora de Gestão de Pessoas do HMUE, Renata Dolzane, mostrou os passos da elaboração eficaz de um currículo. Foram esclarecidas dúvidas quanto à necessidade da entrega do documento com foto e de quais dados que devem constar para facilitar o contato do recrutador com o candidato. “O currículo funciona como se fosse a sua presença diante de alguém sem você estar lá. Precisa ser objetivo, ter informações relevantes a seu respeito”, disse Renata.

A coordenadora explicou que no tópico sobre experiência é importante colocar as três últimas experiências profissionais, de preferência aquelas registradas na carteira de trabalho. “Não adianta colocar as primeiras experiências. O recrutador quer saber do seu momento atual, das experiências mais recentes, são elas que vão importar”, continuou. A descrição do trabalho desenvolvido também é importante. “Às vezes a pessoa coloca que exerceu o cargo de assistente administrativo, mas fazia outro tipo de atividade que não era bem dessa função. Assim como existem pessoas que exerceram o mesmo cargo e tinham mais atribuições”, disse. Com a descrição o recrutador tem a possibilidade de verificar onde o candidato se encaixa na futura empresa.

O tópico sobre entrevista de emprego foi comandado pela psicóloga organizacional da Pró-Saúde no HMUE, Gilmara Mendes. Clareza na hora de falar, objetividade, além de informação prévia sobre a empresa foram as dicas dadas pela profissional. “É importante que antes da entrevista você se informe sobre o empregador, saiba quem é a empresa ou instituição, quais os valores, a missão dela. Assim você saberá como se adequar em caso de contratação”, disse.

O uso de roupas discretas, higiene pessoal – especialmente barba bem feita para o caso dos homens e cabelo preso para as mulheres, quando o cabelo for grande -, também foram mencionados. Na hora da entrevista, o candidato deve evitar cortar a fala do entrevistador, se mostrar arrogante, insistir em saber o valor da remuneração e se expressar com gírias e frases sem sentido. “Também não é bom falar mal das suas experiências de trabalho anteriores”, comentou.

A analista de treinamento do HMUE, Rose Monteiro, falou da importância da qualificação para um bom currículo. Para a colaboradora, ainda que esteja desempregado e com pouco dinheiro, o candidato pode aproveitar as oportunidades de curso oferecidas por entidades como a APPD. “A internet também é um bom local para procurar cursos, há muitas oportunidades gratuitas”, motivou.

Rose também destacou um item fundamental para quem tem deficiência: a autoestima. Segundo a colaboradora, a pessoa com deficiência deve sempre ter em mente a ideia de que é capaz de ocupar um lugar no mercado de trabalho. “Não podemos deixar as ideias negativas nos jogarem para baixo”, incentivou.

A motivação ao público presente também veio em forma de depoimento. A assistente administrativa da área de Gestão de Pessoas, Rosa Amorim, fez um relato de sua experiência de trabalho na Pró-Saúde. Rosa convive com uma deficiência auditiva, desde criança, e usa uma prótese. Ela relembrou a trajetória do preconceito que sofreu na infância por não conseguir ouvir como as outras crianças. “As pessoas não queriam conversar comigo porque eu tinha muita dificuldade para entender o que falavam”, contou.

A deficiência auditiva não foi barreira para Rosa. Além do emprego na Pró-Saúde, a assistente administrativa cursou a graduação em Pedadogia. Ela contou ter feito questão de entrar na Universidade do Estado do Pará (UEPA) sem a ajuda das cotas para provar a si e aos outros que é capaz.

Feliz por ter compartilhado sua história, a colaboradora ressaltou a disposição da Pró-Saúde em dar oportunidade de trabalho a deficientes e a quem busca o primeiro emprego. “Foi motivador por poder passar o exemplo para outras pessoas. A gente percebe que há muitas pessoas que se acham à margem das demais, que não têm condições de exercer uma atividade. É importante que possamos esclarecer às pessoas que elas precisam se capacitar para que consigam entrar no mercado de trabalho e consigam competir com outras pessoas. Foi muito valoroso representar a Pró-Saúde, estamos aqui para contribuir, sabemos que é responsabilidade social e a Pró-Saúde está comprometida neste propósito”, disse.

O diretor Técnico Científico da APPD, Ronaldo Oliveira, elogiou a parceria entre a entidade e a Pró-Saúde para promover capacitação das pessoas com deficiência. “Nós sempre tivemos a necessidade de levar informações ao candidato para que ele possa se preparar melhor para o mercado de trabalho. Não é tão somente querer trabalhar ou preencher vagas para atender a Lei de Cotas, é preciso estar preparado”, completou.

Incentivo

A chamada Lei de Cotas prevê que empresas com mais de 100 funcionários reservem de 2 a 5% das vagas de seu quadro de colaboradores para os PCDs. Com a orientação, a lei garante que as pessoas com deficiência voltem a fazer parte da sociedade. Dados do ano de 2015, da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), aponta que 403.255 novas vagas foram criadas para PCDs no país.

De acordo com o Ministério do Trabalho, a maior adaptação que a empresa deve ter para receber um PCD é comportamental, sensibilizando gestores e colaboradores para lidar com as diferenças, já que as equipes terão aprendizados sobre inclusão e cooperação. No que diz respeito ao desempenho profissional, a pessoa com deficiência pode ter a produtividade igual ou superior à média dos demais trabalhadores de uma empresa ou instituição.

Na Pró-Saúde todas as vagas abertas são destinadas a pessoas com deficiência. Para concorrer a uma oportunidade na entidade, basta cadastrar o currículo no portal de carreiras no endereço www.prosaude.org.br/trabalheconosco. No caso de pessoa com deficiência, o currículo deve ter anexo o laudo médico, a ser obtido com profissional do Sistema Único de Saúde (SUS) ou particular com o CID da deficiência.